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A Revista Veja estampou em sua capa há coisa de 2 meses o que para muitos foi considerado o primeiro santinho de campanha de José Serra. A imagem do então pré-candidato do PSDB à presidência de República com um olhar sereno, meigo e até mesmo feminino demais pela candura era uma imitação à mesma postura do então candidato a presidente americano, Barack Obama. Os olhos calmos, o rosto avançado e apoiado em uma das mãos. Assim era a imagem de Obama que tornou-se emblemática para uma campanha histórica. Assim, a revista da editora Abril – declarada inimiga do presidente Lula – imitou Obama para promover o governador de São Paulo. Hoje, vencido o período pré-eleitoral e iniciada a campanha, percebe-se que a Revista Veja deu um tiro certeiro, preciso, em postar Serra como uma criatura de candura singular. Acertou em estampar José Serra com olhar calmo, contemplativo, condescendente. Um olhar compreensivo de pai ou avô. Um olhar de contos de fada. Acertou na estratégia de mostrar para seus leitores – e a quem mais passasse os olhos pela capa do semanário – um Serra afável. E acertou porque uma das regras do marketing eleitoral é realçar aquilo que se tem de bom mas, sobretudo, corrigir as posturas em cima daquilo que você não tem e não é. E meigo, compreensivo, afável, delicado e sereno é tudo o que José Serra não é. Nunca foi. E nesta campanha eleitoral de 2010, ainda bem prematura, o candidato tucano à presidência já vem mostrando que não será. Em sua passagem por Goiânia, na última terça-feira (20), o tucano paulista esbanjou mau humor, frases e olhares raivosos ao palestrar na Federação das Industrias do Estado de Goiás e deixou a impressão nos profissionais de imprensa de que não veio para a eleição para brincar. Tampouco para vencer. Serra parece estar cortando o Brasil para semear o seu próprio rancor. De tudo o que o presidenciável deixou como impressão, nada chega perto do que ele fez com uma repórter goianiense. Esbanjando preconceito, intolerância étnica e até mesmo uma pretensa superioridade do que se pode chamar de “racismo geo-político”, ao ser indagado por uma jornalista durante coletiva, José Serra não entendeu a pergunta e saiu-se com essa: “Não entendi o que você falou por dois motivos: o primeiro por causa do som, o segundo por causa do seu sotaque...”. A frase causou espécie em todos os presentes e até mesmo entre os tucanos locais – os de sotaque arrastado, goiano. Ficou a má impressão de sua forma de tratamento aos brasileiros deste Estado do Brasil Central. A falta de paciência, de respeito e a intolerância da convivência com os iguais, cobertos sob a égide da mesma pátria, fez com que seus outros iguais, os tucanos, se calassem. No microblog Twitter, uma das vedetes como ferramenta de divulgação, e de campanha, do PSDB em Goiás, os antes tão espalhafatosos tucanos de Goiás simplesmente se calaram. Os deputados Carlos Leréia, Jardel Sebba e a senadora Lucia Vânia – todos candidatos à reeleição – foram insistentemente questionados por diversos goianos sobre a postura de seu presidenciável. E optaram por se calar. Não encontraram o que responder. Ignoraram a enchente de perguntas e passaram solenes pelo imbróglio. Só não passaram incólumes, já que o silêncio dos candidatos e apoiadores do projeto nacional do PSDB os colocou na desconfortável posição de concordar com o que foi dito por José Serra na ideologia de seu discurso. O sotaque de outros brasileiros que não os paulistas que Serra está habituado a conviver é por vezes desagradável e incompreensível. E se antes os candidatos tucanos comentavam quaisquer simples movimentos dos candidatos a senador, ao Governo e demais detalhes de campanha, estranha e justificadamente no episódio Serra optaram por se calar e deixaram sem resposta um mar de internautas goianos que estava em busca de uma explicação para o ocorrido. Outra surpresa veio na mesma velocidade da propagação do ocorrido pela internet, também através do Twitter. Usuários da rede social no nordeste brasileiro destacaram que o mesmo episódio ocorreu na última sexta-feira (16) em Pernambuco. O jornalista Valdecarlos Alves, da Folha de Pernambuco, relatou em nota no Blog do mesmo jornal, o ocorrido: “O presidenciável José Serra ainda não se acostumou com o sotaque nordestino. Ao ser perguntado pelo editor de política da Folha de Pernambuco, Ricardo Dantas Barreto, “se o trem-bala na verdade foi um tiro de festim”, o tucano retrucou: “Dá para repetir. Não entendi. Foi muito no sotaque daqui””. “Foi muito sotaque daqui” – foi a resposta de José Serra aos pernambucanos. E foi muito difícil entender o sotaque goiano. A pergunta que sobra nesta situação toda é: para onde vai José Serra com este comportamento preconceituoso, impaciente, intolerante e mesquinho com relação aos regionalismos brasileiros? Serra não parece querer ser presidente do Brasil e fica cada vez mais claro em seu comportamento que seu desejo era continuar sendo presidente do Estado de São Paulo, o Brasil a parte. Queria mesmo inaugurar obras próximo ao Shopping Higienópolis, no Cidade Jardim. De repente, comemorar as novas instalações do esgoto da badalada Oscar Freire. Serra não quer conhecer o Brasil porque não o tolera. A começar pelo “incompreensível” sotaque. O comportamento do tucano José Serra é tão lastimável que comentários adicionais não o tornam mais lamentável, mas mais indigesto. Mas, outro questionamento, este idiossincrático, se faz necessário: aos membros do PSDB de Goiás, que venceram uma campanha eleitoral usando a imagem de um caipira caricato com Nerso da Capitinga, como fica a situação? Marconi Perillo só é um forte candidato, um senador bem votado e foi governador por duas vezes, por uma estratégia de marketing irrepreensível: usar um matuto, que falava bem para os goianos, que a panelinha deveria acabar. Nerso, então bastante popular personagem de Pedro Bismarck, invadiu as casas dos goianos falando o típico “goianês” e “mineirês”. O mesmo “goianês” hostilizado pelo ultra-paulista-radical José Serra. Marconi Perillo, que estava ao lado de Serra e encarnou a campanha do Nerso, nada disse. Calou-se. Ele e todas as estrelas do PSDB. Não seria uma demonstração de respeito ao povo de Goiás se posicionar em relação a isto? Ou será que existem momentos e momentos para se aproveitar do matuto Nerso da Capitinga? Por enquanto, a dúvida deixa a certeza de que quem cala, consente. Por onde vai caminhando José Serra vai ficando clara a sua intenção de ver no resto do Brasil o que ele enxerga em São Paulo. O perfil de cidade do mundo. Serra parece manter uma utopia torta, mesquinha, egoísta de que o Brasil “mereceria” ser São Paulo. Com os modos de São Paulo, o estilo de São Paulo, o idioma falado em São Paulo. A visão é tão tacanha que nem mesmo seu colega de pose, Barack Obama, governa um país que se assemelhe à Washington ou Nova York. Se existe da Rodeo Drive de Beverlly Hills, a Ocean Drive de Miami e a Times Square em Manhattam, também existe os estados do Arkansas, Idaho. Existem os “rednecks” que se equiparam com os nossos matutos, talvez os sertanejos. Um líder governa com as diferenças. Um administrador mostra seu potencial obtendo resultados driblando adversidades. Administrar com dinheiro sobrando não é gerir, é gastar. Liderar um padrão uniforme de pessoas é simplesmente ser uma figura contemplativa, um bibelô na estrutura política ou hierárquica. Governar é contemporizar, negociar, ter sabedoria para dosar prioridades. E para isto deve-se levar em conta diferenças, dificuldades, limitações. O nivelamento de qualquer espécie em determinado padrão eleito com o ideal é o caminho mais rápido para a intolerância e o preconceito. E Serra quer mostrar ao Brasil como o Brasil deveria ser. Ao final desta odisséia do “furacão” Serra por Goiás, o resultado que o presidenciável deixa é que ele parece estar numa campanha desesperada para evidenciar raivas, ódios, rancores e invejas. Inveja, sim. Por, por exemplo, Lula ser tudo o que nem ele e nem FHC não são e jamais conseguiriam ser. Porque primam por imagens perfeitas demais, corretas de um jeito exageradamente distorcido demais, são engomados demais, eretos demais, limpos demais. José Serra não transpira. Em oito anos de governo, FHC jamais deixou de lado o terno impecável, uma imagem emblemática, elegante, perfeita. Lula, por exemplo, sua. Ri. Erra, volta e conserta o erro. E, para infelicidade de toda a micro-nação tucana, que tem em São Paulo e nos eixos mais desenvolvidos economicamente o padrão de vida e de povo ideal, o Lula é parecido demais com o Brasil dos brasileiros de verdade, os brasileiros que são maioria. Lula e o Brasil são demasiados humanos para o padrão de José Serra e do PSDB. A começar pelo sotaque, este nosso jeito de falar incompreensível.
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